CAMINHOS DE PAPEL

segunda-feira, dezembro 04, 2006

HOMEM, MEIA-IDADE, PROCURA...



Ontem, fui ao SESC Santana para assistir a um espetáculo de teatro. Como cheguei um pouco cedo, subi até a sala de leitura onde peguei uma revista qualquer e fiquei folheando-a.
Acomodei-me num sofá, ao lado de um homem aparentando estar perto dos cinqüenta, que folheava um jornal. Não sei se era associado ou não, pois essa área não restringe a entrada de pessoas não matriculadas.
Ao lado dele, em pé, uma mulher, que depois me pareceu ser sua esposa, folheava outra parte do jornal apoiando-o numa mureta.
Cena corriqueira, pensei. Mas logo vi que ao meu lado se desenrolava um pequeno drama — eu diria, tragédia, desde que não me entendam politicamente (ou se quiserem, podem entender, sim).
A certa altura, a mulher perguntou ao homem se ele sabia onde ficava a av. Lineu de Paula Machado. Longe, disse ele, ao que ela retrucou ser uma pena, pois havia no jornal algo que parecia ser promissor.
Não compensa (afirmou o sujeito) atravessar a cidade toda para ganhar pouco.
Essa afirmação acendeu minha curiosidade e, olhando de canto de olho, percebi que ambos consultavam os cadernos de empregos do jornal domingueiro. A partir daí, desinteressei-me da revista e, sem largá-la, passei a prestar mais atenção aos dois.
Em dado momento ele mostrou um anúncio à mulher, que resmungou: “Não, porteiro, não. Você faz mais do que isso”.
O homem voltou ao jornal, tal como ela, e ficaram pesquisando outras ofertas de trabalho Os comentários iam e vinham. Oportunidades existiam, mas mesmo para quem procurava sair de uma presumível situação de sufoco, por um ou outro motivo elas não se encaixavam no perfil daquele homem de cabelos embranquecendo e definitivamente a caminho de mais amarguras na sua vida de trabalhador.
É claro, estou emitindo um juízo de valores todo meu, mas não consigo escapar da idéia que ali, ao meu lado, um drama pessoal se desenrolava.
Dada a minha hora de ir para a platéia, levantei-me e fui, calado. Que diabos, pensei, fazem com que um homem passe uma tarde de domingo atrás de um caderno de jornal pensando na segunda-feira que se aproxima, quando irá à luta na busca pela sobrevivência? Pior, nesse caso em particular e por dedução toda minha, em desvantagem.
Mas a vida continua e, para mim a tarde-noite terminou bem; assisti à A louca de Chaillot, com uma interpretação magistral de uma atriz novinha e despontando para a glória: Cleyde Yaconis. E ela tem só oitenta e três aninhos. Guardem bem esse nome.

4 Comentários:

  • Às 1:23 PM , Anonymous Anônimo disse...

    pois é, a luta pela sobrevivência nos faz presenciar essa cenas tristes. Quanto à jovem Cleidr Yaconis, o nome não é estranho. Creio que logo ela fará sucesso, basta que se espelhe nas jovens atrizes de agora (argh).

     
  • Às 6:30 PM , Anonymous Mônica Montone disse...

    A cena poderia ser de uma mãe dando o peito a uma criança.... Essa cena se repete a cada minuto em todo país e isso é muuuuuito triste.

    beijos, querido e boa semana

    MM

     
  • Às 4:48 AM , Blogger Analuka disse...

    Sim, muitas vezes a vida é tragicômica, os contrastes e ambivalências criando os misteriosos enredos da vida... Abraços.

     
  • Às 6:38 AM , Blogger Maria José disse...

    Carlos, achei brilhante sua observação meio que incidental de um drama que longe de ser o único, assola nosso País, de norte a sul.
    Infelizmente.
    Mas o bom é que se alguém pode distinguir a cena, pelo menos, ela não se perdeu no cinza que é a vida daqueles que tem que passar o domingo pensando na segunda.
    Em tempo, Cleide Yaconis protagonizou uma novela da Band, chamada Ninho da serpente, que eu assisti ainda mocinha. E adorava. Que bom saber que ela ainda está na ativa.

     

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