CAMINHOS DE PAPEL

segunda-feira, novembro 28, 2005

QUATRO SENTIDOS

Milena era diferente; nascera sem o olfato e seus pais demoraram para perceber essa anomalia, pois criança só começa a exprimir seus conceitos na medida em que vai ganhando o mundo.
O cheiro da fralda suja não a incomodava. Se chorava, era porque assaduras maltratavam as dobrinhas de sua carne. Tampouco o cheiro da mãe fazia falta, substituído que foi pelo modo como era segurada no colo. Levada aos mamilos, logo aprendeu como procurar as tetas maternas.
Lá pelos quatro anos, os primeiros vestígios de vaidade. Roupinha nova e sapatinhos brilhantes; começava a gostar disso. Não entendeu quando a mãe passou-lhe um perfume atrás das orelhas:
— Que é isso, mammy?
Milena não entendeu o que queria dizer “ficar cheirosa”.
- Que é cheirosa, mammy?
A mãe desacorçoou. Como explicar o cheiro? Pegou o cachorro, alí perto:
— O que você sente assim pertinho do Rex?
— Ele é bonito, é quentinho.
— Mas, o cheiro... não sente o cheiro?
Ela não só não sentia, como não sabia o que era aquilo. A mãe se desesperou. Num gesto beirando a insensatez pegou a garrafa do limpador à base de amoníaco levando-o perto das narinas da filha: nem uma careta.
À noite, chorou com o marido:
— Mileninha não cheira. Ela não tem olfato.
Consultaram médicos e mais médicos, enfim, todos os especialistas que pudessem explicar aquilo. Constatada a anosmia, sentenciaram: poderia ser temporária. Tumores ela não apresentava e nada explicava o caso. Nem o lado psicológico foi descartado. Mas não havia o quê nem o porquê. Milena teria de enfrentar o mundo à sua maneira. Um prosaico peido era motivo de repreensões. Por quê? perguntava-se, se às vezes era em silêncio?Foi crescendo sem sentir o cheiro da vida.
— Mãe, a carne assada está uma delícia. Como é o cheiro dela?
Não havia resposta para esse e nenhum outro cheiro. Milena teve de começar a adivinhar os cheiros.
Na feira-livre, pegava uma laranja, olhava-a, apalpava-a e seu conceito da fruta estava pronto, inclusive o de cheiro: amarelado.
Gostava de flores. Nomeou-lhes os aromas. Tinha uma idéia toda sua dos cheiros e explicava-os como os entendia, numa mistura de sentidos:
— Ah, que vermelho cheiroso.
Mas confundia-se com o diferente vermelho da maçã. Começou a ficar neurótica.
Cresceu. As paixões vieram e foram. Como saber a diferença que um perfume poderia fazer? Menos ainda compreender o que significava mau hálito. A mãe tentava explicar, mas para Milena era difícil entender o inexplicável.
Conheceu homens; amou, desamou, tudo com apenas quatro sentidos. E na cama, há que se ter os cinco.
A neura derrubou-a. Sentiu-se desgraçada. Julgara poder viver sem o cheiro; todo mundo é incompleto em alguma coisa. Por que não ela? Mas a decisão de encarar um mundo sem cheiros a enfraquecia. Entendia quando alguém chorava que a vida já não tinha mais sabor. No entanto, como fazer uma metáfora com algo que não conhecia?
Num dia qualquer, em seu desalento, sentada na cozinha e depois de pôr a água para o café para ferver, tentou relaxar pensando na infância sem cheiros, quando era feliz. O calor do Rex; o cocô bonitinho do Rex; o nariz enfiado de brincadeirinha num sapato, rindo enquanto as outras crianças faziam caretas. E o pai chegando em casa suado e carinhoso.
Pegou da caneca de água e despejou-a no coador. A fumaça e o escuro sem cheiro. Um vento apagou o bico de gás, que ficou aberto.
Tomou o café, aprovando-o na boca e só ali. Permaneceu longo tempo degustando aquele sabor, queria aproveitar do que conhecia. Depois, pegou o maço de cigarros sobre a mesa, bateu-o e um deles saltou para fora. Levou-o à boca, pensativa, para em seguida dar um único clique no isqueiro.
(Texto premiado no concurso de contos da Academia de Letras de São João da Boa Vista- SP)

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