CAMINHOS DE PAPEL

domingo, janeiro 18, 2009

ARCA DE NOÉ

CONTO CLASSIFICADO EM 4º LUGAR NO CONCURSO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO, CUJO TEMA ERA "PLANETA TERRA, ANO 2050".
OS DEZ PRIMEIROS CONTEMPLADOS NAS CATEGORIAS CONTO, CRÔNICA E POESIA, TIVERAM SEUS TEXTOS PUBLICADOS EM ANTOLOGIA EDITADA PELA EdUFF.




É um ponto perdido na imensidão do Atlântico Norte, conhecido apenas pelos capitães das duas naves de guerra. Pode parecer estranho que seus respectivos comandos não saibam onde exatamente estão a fragata americana USS John Wayne e o submarino nuclear russo Nikita, este uma homenagem a um antigo líder político reabilitado pela terceira vez.
Neste ano de 2050 nada mais é de estranhar em vista do que está ocorrendo por todo o planeta. A exemplo do que ocorrera lá pela metade do século passado, a guerra fria ressurgiu, e agora o governo de cada um desses países tem razões de sobra para ficar atento às atividades do outro.
O presidente americano, segundo a política dos republicanos ortodoxos de seu governo, afirma serem os russos inimigos reais do mundo ocidental, eles que ao final do século XX viviam percorrendo a Europa com o pires na mão. Do lado russo, o presidente Putin II., filho bastardo de um líder político do início do milênio tem pensamento análogo.
A situação mundial, aliás, está caótica. Guerras pontuais, revoluções, tudo, enfim, é pretexto para que cada lado acuse o outro de tentar expandir seus domínios. A unidade européia balança perigosamente; tropas austríacas estacionadas na fronteira germânica alimentam essa paranóia. O islamismo ganha terreno nos países da comunidade. Por seu lado, Holanda, Dinamarca e Suécia, recém-convertidas, pregam o Alcorão à força. A Espanha tenta, também por meios violentos, separar-se do país basco.
Na América Latina a situação não é diferente. Os países que um dia formaram o que chamavam de Mercosul, vivem às turras. Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai, têm em seus governantes, expoentes do crime organizado e brigam por uma posição melhor no mercado internacional de drogas. Só não se expandem mais porque os Estados Unidos mantêm um rígido controle sobre a mercadoria que entra em seu território e a Colômbia combate duramente o tráfico.
A Ásia, por seu lado, nunca deixou de ser problema; Índia e Paquistão estão em guerra e, recentemente, cada qual lançou uma bomba atômica no outro. Morreram cerca de 13 milhões de pessoas, o que no contexto indo-paquistanês não passa de mero detalhe. Tropas japonesas guardam a fronteira entre as Coréias do Norte, do Sul e do Centro, enquanto Taiwan ameaça pela enésima vez invadir a China continental.
Na África espalham-se as epidemias de laboratório e, em termos militares, seus países não pesam no panorama mundial. Destaque apenas para o apartheid imposto pelos negros às minorias brancas no Sul.
Mesmo a Igreja, em sua proverbial sabedoria, está sem saber o que fazer. O Vaticano, adquirido na década de vinte pela Igreja Universal do Reino de Deus, vem através do papa Macedo II pedir paz e compreensão entre os povos, mas a infinita sabedoria e fé do piedoso pontífice não é ouvida.
Qual o papel, então, dos dois navios perdidos no meio do oceano, a meio caminho entre a Europa e os EUA?
Seus comandantes já se haviam contatado semanas antes e, em segredo, elaboraram um plano visando assegurar a paz mundial. Era simples: cada uma dessas naves iria para a costa de seu respectivo país e ameaçaria jogar uma bomba nuclear em uma de suas maiores cidades, caso os dirigentes não se dispusessem a entabular conversações sobre paz. Simples e direto, achavam.
Mas não é tão simples como pensam. No navio americano não há unanimidade entre seus oficiais. O Imediato critica reservadamente seu capitão e não tem, realmente, intenções de ver seu país alinhando-se com a Rússia. Todavia, não consegue evitar que suas idéias cheguem a seu superior. Este o chama às falas:
— Muito bem, Sr. Jones. Quero saber aqui e agora quais são suas intenções face aos meus planos. Advirto-o que pretendo levar essa estratégia adiante, nem que para isso tenha de passar por sobre meus oficiais.
— Senhor, com todo o respeito, devo informá-lo que eu e outros elementos da tripulação não concordamos com seus planos. É preciso que saiba, também: faremos o que for necessário para impedir tal insanidade.
— Nesse caso, considere-se detido.
— De maneira nenhuma, senhor. E mais: o míssil que o senhor pretendia apontar para New York está direcionado para o submarino russo. Os russos, o senhor bem sabe, sempre foram nossos inimigos. Mesmo durante esses anos em que se pensava estarem eles realmente querendo a paz, na verdade tramavam contra a soberania, o modo de vida e a existência dos Estados Unidos da América.
— A idéia é absurda. Se estivessem tramando contra nosso país, teriam agido durante o governo Schwazenneger. Esse sim, um irresponsável.
— Eu e os homens que me apóiam faremos tudo para evitar esse contato. Portanto, considere-se detido o senhor. E, por favor, largue esse revolver.
— Jamais. Trate de modificar o alvo do míssil.
— Nunca. Dê-me a arma e...
Mostrando que fala a sério, o capitão não hesita em atirar em seu primeiro-oficial.
— Merda, capitão. O senhor... enlouqueceu...
— Afaste-se desse painel, Sr. Jones. É uma ordem.
— Para o diabo com suas ordens. Eu disse... que vou... impedi-lo.
Sangrando e quase sem forças, o Imediato alcança o botão de disparo do míssil e o aciona. O navio estremece quando a mortífera arma sobe aos céus e depois desce, mergulhando no oceano.
— Marujo, mexa-se, vocifera o capitão. Vá para o sonar. Acompanhe o míssil.
O trêmulo marinheiro assim o faz. Com os fones no ouvido e uma expressão parva, procura localizar o artefato. De repente, grita:
— Jesus Cristo! Acertamos o submarino, capitão.
Lívido, o comandante fica sem ação alguma enquanto olha pelas janelas da ponte. O mar parece em efervescência, causada pelo impacto da arma contra a nave russa. O marinheiro vem tirá-lo desse torpor:
— Capitão! Capitão! Eles contra-atacaram. Devem ter detectado o disparo antes de irem para o inferno e dispararam um míssil.
Ainda paralisado, o comandante vê o foguete russo sair das águas subindo na frente de uma esteira de fogo e depois, lá no alto, virar seu nariz na direção da fragata e descer com tudo.


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A trezentos e trinta quilômetros da Terra, a tripulação do ônibus espacial Bill Gates olha, estarrecida, as labaredas atômicas devastando a face do planeta. O dantesco espetáculo dura horas até que uma nuvem cinzenta acaba por cobrir tudo.
Silenciosos, ficam todos os doze tripulantes — dez homens e duas mulheres — a olhar para o nada. Debaixo das nuvens provavelmente a vida fora extinta. O comandante da espaçonave chama-os à razão:
— Bem, senhoras e senhores: parece que temos um problema. Tudo indica que não sobrou viva alma lá embaixo.
— O que faremos, coronel?
— Aquilo que a finada humanidade e o destino esperariam de nós: vamos repovoar a Terra.
— O QUÊ??? Indagam em uníssono as duas tripulantes.
Imagina-se que nas setenta e duas órbitas restantes muita discussão vai rolar.



5 Comentários:

  • Às 10:35 AM , Blogger Ana disse...

    Excelente!

     
  • Às 8:48 PM , Anonymous Groo disse...

    Muito bom o conto!

    "O Vaticano, adquirido na década de vinte pela Igreja Universal do Reino de Deus, vem através do papa Macedo II pedir paz e compreensão entre os povos..."

    Papa Macedo II foi ótima sacada! Imagine os feriados e santos todos "rebaixados". A Virgem Maria, nossa, essa seria expulsa das igrejas. Com chutes e pontapés.

    Parabéns pelo conto! Muito bom mesmo!

     
  • Às 10:50 AM , Blogger Angélica Albuquerque disse...

    Quem sabe um dia, quem sabe em uma outra vida me aproxime de qualquer coisa que se assemelhe a isso...

    Obrigada pelo blog...

    Quando tiver um tempo visite o meu que esta cheio de amadorismo.. =D

     
  • Às 7:12 AM , Anonymous Anônimo disse...

    Um de meus favoritos!
    Excelente como sempre.

    Mauricio

     
  • Às 1:40 PM , Blogger JAIRCLOPES disse...

    O planeta Terra, segundo a ciência, já passou quatro ou cinco extinções cujo propósito - se é que existiu algum propósito - seria a renovação das espécies. Advogo que a próxima extinção terá o homem como agente e alvo. O conto, premonitoriamente, aponta nessa direção. Abraços, JAIR.

     

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