CAMINHOS DE PAPEL

quarta-feira, junho 15, 2005

AVENIDA DANÇAS


Eu ainda estava praticamente saindo das calças curtas para arriscar uns passos na ansiada adolescência e, por serem outros os tempos, podia andar pela capital paulista sem maiores sustos e descobrir seus inúmeros segredos.
Ao passar pela avenida Ipiranga, que ainda não abrigava novos baianos, ficava fascinado com os letreiros e cartazes do Avenida Danças, nas imediações dos saudosos Parreirinha e Expresso Luxo. Este com suas enormes limusines que faziam os sessenta quilômetros entre São Paulo e Santos em rapidíssimas duas horas.
Mas era na casa de danças que se concentrava minha atenção. Em meio a cartazes anunciando o jovem e promissor crooner, Agostinho dos Santos, e a animada orquestra de Osmar Milani, eu só me detinha diante dos que apresentavam as chamadas taxi-girls, moças de boa conduta que dançavam profissionalmente naquele lugar.
Nunca pus os pés lá dentro, é verdade. Não tinha idade, não tinha dinheiro e nunca tive coragem de encarar as moçoilas que, segundo diziam, picotavam cartões a cada dança concedida.
Os anos se passaram, Caetano cantou e se desencantou com a Ipiranga, as meninas dos cartões deram lugar a outras que dispensavam a burocracia para ganhar a vida. Nos anos modernos, são os personal dancers que comandam os passos pelos salões.
Hoje as mulheres são maioria, mas quem sabe naqueles também poderiam ser; caso não tivessem que ficar trancadas em casa enquanto os maus pais de boas famílias caiam na boemia e nos braços das profissionais de dança. Agora tudo é diferente: elas deixaram o lar e o cestinho de costura e também querem se divertir.
Nos atuais salões de baile, falando daqueles onde ainda se dança de rosto colado, além de maioria, boa parte delas chega desacompanhada. Seja porque o marido não quis ir, seja porque não têm companheiro, o fato é que elas chegam e esperam.
Esperam porque os machos estão em retração. Aguardam para serem tiradas para dançar, o que significa uma verdadeira loteria no salão. Com olho clínico, os organizadores desses eventos passaram a contratar cavalheiros — também não sei dizer se insuspeitos ou não — para tirar as damas em eterna espera.
Chamá-los de taxi-boys soaria estranho e o nome de personal dancer, ainda que incorreto, é mais moderno. Não há necessidade de se picotar cartões e todos ficam satisfeitos. Não interessa às damas o nome ou a denominação dada aos dançarinos. Também não importa a ponta do torturante band-aid em seus calcanhares. O que vale mesmo são dois pra lá, dois pra cá.







3 Comentários:

  • Às 12:01 PM , Anonymous Cármen Rocha disse...

    Carlos Bruni,

    Suas crônicas são ótimas, assim como todo o resto,q aliás não é nenhum resto.
    Esta tem um sabor antigo e moderno. São os sentimentos humanos q são eternos.O q muda é esse seu jeito personalíssimo de contar.Um abração. Cármen Rocha.Em tempo! Passeie pelo meu blog:
    carmenrochacontos.blog.uol.com.br

     
  • Às 12:01 PM , Anonymous Cármen Rocha disse...

    Carlos Bruni,

    Suas crônicas são ótimas, assim como todo o resto,q aliás não é nenhum resto.
    Esta tem um sabor antigo e moderno. São os sentimentos humanos q são eternos.O q muda é esse seu jeito personalíssimo de contar.Um abração. Cármen Rocha.Em tempo! Passeie pelo meu blog:
    carmenrochacontos.blog.uol.com.br

     
  • Às 7:32 PM , Anonymous Maria Olindina disse...

    Excelente, Carlos Bruni

    "O que vale mesmo são dois pra lá, dois pra cá". E assim cheguei ao final da crônica "AVENIDAS DANÇAS" e a guardarei na minha memória, como também preservei(num cantinho de papel não como folhas amassadas, mas dentro de uma gaveta) a famosa crônica"A MULHER DE VERDE".
    Muito grata pela oportunidade desse maravilhoso passeio pelo seu blog.
    Com carinho,
    Olindina*

     

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial