CAMINHOS DE PAPEL

domingo, janeiro 15, 2006

TRAIÇÃO


Geralmente eles chegam quando o sol ainda nem se levantou. No dia anterior, foram sendo arregimentados com um fim específico: invadir um sítio, fazendola, ou qualquer pequena propriedade que seja, previamente escolhida. Partem quando já é noite alta e viajam sob as estrelas ou chuva forte. Nada os detém.
Sempre a cavalo, carregam numa das mãos uma foice, símbolo do movimento. Suas mulheres os acompanham; companheiras fieis, sabem que na lida terão um lugar onde darão inestimável apoio.
Ao chegarem ao lugar escolhido, encontram o proprietário recém-acordado, rosto cheio de surpresa e feições marcadas pela dureza da vida campesina. Passado o instante do impacto, o dono só lhes oferece aquilo que lhe é possível dar: um sorriso e um bom dia à comitiva que, de forma supina, vem se igualar ao homem naquele momento com urgentes necessidades, mas difíceis de serem contornadas sem um apoio amigo.
Essa ocorrência e seu nome, “traição”, têm origens remotas no tempo e nos fundões do Mato Grosso; o movimento nada mais é que o da solidariedade de uma comunidade rural para com alguém que precisão tenha.
A comitiva logo se distribui nas tarefas; capinar o pasto, consertos das cercas ou na casa de moradia, marcar ou vacinar animais, enfim, tudo que aquele proprietário está com dificuldades em implementar.
Os invasores o fazem, felizes. Entoam cantigas de incentivo durante a lida enquanto as mulheres preparam o almoço da tropa, pois ninguém ali chegou de matulagem.
Mais tarde, sentados ao chão, à sombra das árvores, dividem aquilo que trouxeram, irmanam-se, e mais uma vez está cumprida a tradição do homem brasileiro, este sim, festejado como cordial.
Isso tudo eu assisti num domingueiro programa matinal na TV, mas ela, como veículo de informação, e como tantos outros, também traz outras notícias de traições que de várias maneiras ocorrem por aí e nem por um momento podem ser legitimadas como atos de fraternidade. Pelo contrário, carregam um sentimento de que, se o brasileiro é um forte, muitas vezes ele é esmagado pelo cinismo de quem se diz de bem.
Sentei-me frente ao computador e escrevi esse texto. Mas não quis me alongar. Por que iria estragar o resto do meu dia?

4 Comentários:

  • Às 10:55 PM , Anonymous inquieta disse...

    Mas tá muito bom, Carlos. O texto. E de uma derta forma alegra o dia da gente descobrir que ainda existe solidariedade.Beijão.

     
  • Às 3:22 PM , Anonymous Mônica Montone disse...

    Concordo com a "inquieta", Carlos... O texto está muito bom...

    Obrigada pela visita em meu blog e volte sempre que quiser!!!

    Beijos,

    MM

     
  • Às 4:07 PM , Anonymous eduardo disse...

    Gostei muito do seu blog, os seus textos são nota10

    http://cartasintimas.zipe.net

     
  • Às 6:14 AM , Blogger Leila Silva disse...

    Gostei de saber desta 'traição' e muito também da forma como vc colocou/escreveu.
    Beijos
    Leila

     

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