CAMINHOS DE PAPEL

quarta-feira, abril 05, 2006

JOGOS DA MEMÓRIA

Impossível esquecer.
Quando desembarquei na Estação da Luz, quase ao final dos anos sessenta, começava a materializar meus sonhos de estudar na cidade grande. Jamais passara por minha cabeça, entretanto, que a decisão de ir para São Paulo e fugir da falta de horizontes em uma cidade pequena fosse mudar minha vida de uma forma tão profunda.
O fascínio pela metrópole sedimentou-se de imediato entre as idéias de um moço interiorano diante das largas avenidas, altos edifícios e uma intensa vida cultural e artística. Havia também muita agitação política, pois vivia-se sob o regime militar e este se fazia presente diante das contestações. A repressão oficial era escancarada e a clandestina, por sua vez, manifestava-se de forma não menos contundente. Não seria de estranhar, portanto, que o clima da universidade onde ingressei fosse de contínua movimentação.
Foi nesse ambiente em ebulição que conheci Ana Maria. Engajada de corpo e alma nas turmas de protestos, era uma figura constantemente agitada. Seus cabelos curtos e grandes óculos sempre empurrados para o alto do nariz com o dedo indicador, ajudavam a compor a personagem irrequieta, num contraste gritante com o namorado, Mariozinho. Como se fosse o contraponto àquela jovem decididamente politizada, ele preferia manter relativa distância da movimentação. Questão de temperamento, pensei na época.
Quanto a mim, não era politicamente tão envolvido a ponto de fazer-me notar por ela; mas aconteceu. Começamos a ter contatos mais freqüentes e Aninha, com sua doutrinação nada subliminar, me fez interessar por suas idéias. Perceber que estava apaixonado por aquela figura em eterna agitação foi apenas uma questão de tempo.
Impossível esquecê-la, suspirei muitas vezes, ainda que a onipresença de Mariozinho colocasse freios em meus ímpetos de uma aproximação maior. Isso não impediu almoços a dois no restaurante da universidade ou passeios por suas alamedas discutindo desde política até futebol, passando por Godard, que um caipira como eu conhecia pouco, até — segundo ela — a alienada jovem guarda. Nunca, porém, nos aproximávamos de assuntos do coração. O dela, achava eu, estava voltado para a contra-revolução, havendo tão somente um canto para o namorado.
Ele era uma figura peculiar e seria de esperar que não visse com bons olhos aquela aproximação. No entanto, fazia questão de me convidar para passeios a três e eu ficava a imaginar se suspeitaria existir uma paixão permeando tais encontros. Ainda assim, entre aulas, passeatas e reacionárias coca-colas, fomos os três crescendo juntos. Aninha dividia sua atenção entre ambos e éramos como uma família quase perfeita.
Um dia, ela apareceu com uma máquina fotográfica tipo caixão, relíquia encontrada numa loja de antigüidades e para sua alegria, ainda em funcionamento.
Não foi fácil encontrar filmes que servissem naquele apetrecho, mas superada essa dificuldade, Aninha prometeu que iria montar um álbum de fotos. Memórias devem ser sempre guardadas em gavetas, disse.
Foi assim que os gramados do campus, a bagunça nos alojamentos e até mesmo um saboroso passeio de trem a Santos foram ganhando espaço naquilo que ela queria como o documento de sua vida. Ganhei meu lugar no álbum dividindo páginas com Mariozinho, e todos misturados com professores, amigos e inúmeros pores-do-sol.
A militância contestadora de Ana Maria, contudo, era a bússola que a guiava. Não obstante os percalços que essa posição lhe causava, sempre saía à frente das manifestações e sua voz se fazia ouvir nos debates.
Nessas alturas, já cooptado por ela, passei a acompanhá-la às reuniões e manifestações. Uma dessas vezes valeu-nos um bom susto e como amostra do que ainda viria. Estávamos, certa noite, em um teatro — Mariozinho não quisera ir — onde fomos assistir a uma peça polêmica, quando ocorreu sua invasão por integrantes do Comando de Caça aos Comunistas, braço clandestino da repressão, dispostos a bater e quebrar. A violência exacerbada dos agressores fez com que eu praticamente a arrastasse para longe dali.
Corremos duas ou três quadras antes de pararmos sob a luz de um poste. Assustados a princípio, começamos a retomar o fôlego olhando um para o outro, descabelados, roupas desarrumadas e pusemo-nos a rir de nós mesmos. Com o dedo indicador empurrei seus óculos para o alto do nariz. Aninha segurou minha mão e beijou-me o dedo. O longo beijo trocado em seguida revelou para as estrelas uma paixão que crescia calada entre nós.
Não sei e nem ela quis contar-me como foi a reação de Mariozinho quando contou-lhe a verdade. Nada importante, diria Ana depois. Ele, obviamente, afastou-se e passou a freqüentar outros grupos mas aparecia quando nos reuníamos para discutir nossas atividades. Chegou a dizer a ela que coisas do coração e da política não se misturavam, afirmação até certo ponto contraditória por terem ficado juntos por vários meses.
Foi num dezembro negro que o regime político endureceu devido ao AI–5. Fiquei ainda mais preocupado pela segurança de Ana Maria, pois sua pessoa já era bem conhecida pelas atividades na universidade ou fora dela. Numa lista de pessoas que poderiam ser presas a qualquer momento, certamente estaria entre as primeiras. Diante disso, procuramos por uma kitinete em Pinheiros compatível com nossos bolsos e decidimos morar juntos, nos expondo apenas o necessário, na Faculdade, por si só uma situação de risco.
Calmamente, quando a situação permitia, ou com sobressaltos quando uma sirene se fazia ouvir na rua, fomos tocando a vida. O ano de sessenta e nove começou sombrio, sinalizando tempos ainda piores. Mesmo assim, o ambiente do pequeno apartamento logo foi transformado; faixas e cartazes em secreta confecção amontoavam-se nos poucos lugares livres. Mas era muito bom. Tínhamos um lugar só nosso e para ser lembrado por toda a vida.
Experimentei um misto de alegria e confusão com a inesperada notícia de sua gravidez, naquelas circunstâncias um descuido que me deixou apreensivo. A força de Ana Maria, entretanto, fez-se presente outra vez ao revelar-me num sorriso que não mostrava resignação, mas uma felicidade imensa, que iria ter aquele filho mesmo que para isso tivesse de deixar para trás tudo o que fizera até então.
Seria a postura correta se concretizada desde o início. Quase impossíveis de esquecer, alguns hábitos não mudados se revelariam fatais. Algum tempo depois, como sempre fazíamos às sextas, estávamos acompanhados por três colegas e bebendo cerveja num barzinho da Mourato Coelho, quando Mariozinho assomou à porta. Senti um calafrio ao fitar seus olhos encravados no meio de um rosto de pedra. Logo em seguida um furgão encostou na frente do lugar; alguns homens desceram rapidamente, entraram e rodearam nossa mesa.
Um deles ordenou que nosso grupo, exceto eu, se levantasse. Com o pior se avizinhando também tentei me levantar, mas um par de mãos fortes apoiou-se em meus ombros e me fez sentar violentamente. De nada valeu dizer que queria ir junto; a resposta foi o cano de uma arma encostada em minha nuca.
Ana Maria e os outros foram retirados do salão e obrigados a entrar no veículo. Foi a última vez que os vi.
Mariozinho a tudo olhava, impassível. Antes que nosso algoz se retirasse olhei diretamente para seus olhos. E entendi. A dura expressão que passava ódio e desprezo, não conseguia camuflar o prazer de me poupar. Saber que eu continuaria vivo e mergulhado na dor das recordações seria a sua vingança.
O passar dos anos não me deixou esquecê-la. Como isso seria possível tendo pela frente uma gaveta cheia de memórias e nas mãos uma velha máquina fotográfica?

11 Comentários:

  • Às 8:10 PM , Anonymous Sonia disse...

    Que memória dolorosa! Anos de chumbo... pior, ainda tem gente que gostaria de vê-los de volta.

     
  • Às 9:01 PM , Anonymous Mônica Montone disse...

    Uau, Carlos!!!!!!! Triste história, mas contada por você, da maneira que foi contada ficou linda...

    Beijos,

    MM

     
  • Às 8:14 AM , Anonymous Mônica Montone disse...

    Carlos, obrigada por me linkar!!! Te linkei, também... Beijos, MM

     
  • Às 5:51 AM , Anonymous Anônimo disse...

    Olá Carlos, o texto está realmente muito bom. Parabéns pela publicação, é merecida. Abraço do Botter - www.blonicas.zip.net

     
  • Às 12:55 PM , Anonymous Mônica Montone disse...

    Carlos,

    Toda vez que passo aqui e vejo esse texto sinto-me triste por sua Ana Maria..... risos...

    Beijos e bom fim de semana,

    MM

     
  • Às 3:53 PM , Blogger Leila Silva disse...

    Parabéns, Carlos. Excelente texto.
    Abraços

     
  • Às 10:37 AM , Anonymous Mônica Montone disse...

    Ei, você atualiza aqui somente uma vez por semana?

    Beijos e até,

    MM

     
  • Às 12:41 AM , Anonymous inquieta disse...

    Oi Carlos. Engasguei com teu texto. Qtas Ana Marias,qtos pedaços perdemos naqueles anos.Qtos sustos, qtos pavores.
    Triste memória.

     
  • Às 12:41 AM , Anonymous inquieta disse...

    Oi Carlos. Engasguei com teu texto. Qtas Ana Marias,qtos pedaços perdemos naqueles anos.Qtos sustos, qtos pavores.
    Triste memória.

     
  • Às 6:36 PM , Anonymous Mônica Montone disse...

    Carlos, querido, passei para desejar uma ótima semana e para dizer que estou ofertando uma rosa lá no Fina Flor para pessoas como você....

    Beijos,

    MM

     
  • Às 8:19 AM , Anonymous Mônica Montone disse...

    Carlos, querido, sua memória não tem novos jogos para nos apresentar? Risos....

    Beijos,

    MM

     

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