CONTA-GOTAS
O ruído da vidraça sendo estilhaçada ainda ecoava em sua cabeça, misturado com a voz irada da mãe: “Agora você vai se entender é com o teu pai, moleque”. O menino, agachado junto ao tanque no fundo do quintal, teve um momento de raiva ao pensar na bicanca dada na bola, mas voltou a se encolher ainda mais e puxar os joelhos de encontro ao peito, ao ouvir o clique do trinco do portão e pensar no rabo-de-tatu dependurado atrás da porta da cozinha.
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A praça de alimentação do shopping estava cheia e as duas garotas sairam da sorveteria no tagarelar próprio de pré-adolescentes, sem notar a mulher apressada e carregada de pacotes no meio do caminho. Uma batida num braço e a bola de sorvete se esparramou no chão. A matrona seguiu seu caminho, sem culpas ou desculpas, enquanto a menina olhava com olhos de morango para aquela massa definitivamente perdida no piso brilhante do salão.
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A mesa está arrumada com esmero. Os pratos de porcelana ladeados pelos talheres de prata, cuidadosamente alinhados. Os guardanapos de linho aguardam em suas dobras disciplinadas e o champanhe repousa no balde em meio do gelo quase todo derretido. No centro da mesa o castiçal suporta a vela ainda não acesa. Na toalha impecavelmente branca, a mancha de uma lágrima.
A mesa está arrumada com esmero. Os pratos de porcelana ladeados pelos talheres de prata, cuidadosamente alinhados. Os guardanapos de linho aguardam em suas dobras disciplinadas e o champanhe repousa no balde em meio do gelo quase todo derretido. No centro da mesa o castiçal suporta a vela ainda não acesa. Na toalha impecavelmente branca, a mancha de uma lágrima.
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As portas do vagão se abriram e ela foi a primeira a entrar. Acomodando-se no assento defronte ao meu, colocou as mãos sobre os joelhos colados. A barra da saia curta deixava à mostra um palmo de coxa tão sugestivo quanto aquele que estava oculto.
O metrô lotou e uma parede de barrigas, nádegas, pastas e sacolas trouxe-me de volta à realidade.
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Ele jogou o robe sobre uma cadeira, deixou os chinelos em posição de recebê-lo pela manhã e enfiou-se sob as cobertas. Ela, recostada no travesseiro lia uma revista. A luz tímida do abajur focava caras de famosos e ilhas inatingíveis. Com um suspiro jogou as páginas abertas sobre o tapete ao lado, olhou para o marido que começava a ressonar e apagou a luz.
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Seu olhar se fixou no porta-retrato em cima do móvel mostrando a figura sorridente da mulher abraçada ao neto. Sorriu tristemente enquanto o vento balançava a cortina da janela deixando entrever lá fora, no quintal, o varal sem roupas.
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2 Comentários:
Às 11:01 AM ,
Anônimo disse...
Ótima sacada a do título, Carlos...
Beijos e bom início de semana,
MM
Às 10:44 AM ,
Anônimo disse...
Passei para desejar boa semana,
Beijos,
MM
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