CAMINHOS DE PAPEL

segunda-feira, maio 01, 2006

O PÃO NOSSO



Com um tapa, ela desligou a tecla do rádio-relógio calando-o antes que acordasse o filho que dormia no sofá-cama, na sala ao lado. “Coitado, ele chega tão tarde da Faculdade”, pensou. “Deixa ele dormir mais um pouco”.
Levantou-se, procurou pelo chinelo de lã ao lado da cama, vestiu o peignoir amarrotado e foi para o banheiro. Fez um xixí discreto, passou um pouco de água no rosto enrugado e voltou ao quarto. Vestiu a roupa de todos os dias e foi para a cozinha em passos de gato. Abriu o guarda-comida e depois de apanhar o porta-níqueis, dirigiu-se para a porta da frente.
Ainda estava escuro, mas pela rua passava uma procissão de sonâmbulos dirigindo-se ao ponto de ônibus. Foi até a padaria e depois de um bom-dia tão desanimado ao balconista pediu o de sempre: um leite “C” e dois pãezinhos.
Quando voltou à rua, já clareava. A Estrela-d’alva, como em todas as manhãs, desejou-lhe um dia de muita sorte.

* * * * *

Ela espreguiçou-se gostosamente sobre o lençol coberto de farinha, fazendo com que uma névoa onírica a envolvesse. Instintivamente enrodilhou-se pedindo calor e aquele eflúvio que se desprendia dos pães quentes a extasiava. Um estalar de dedos e a porta do forno à sua cabeceira se abriu e seu corpo foi coberto por dezenas, centenas de pães franceses, pães doces, pães suíços, pães recheados, pães corninhos, pães de sêmola , pães de ajunta, pães ázimos, pães de munição, pães pretos, pães-de-ló, pães ciabatta, pães de centeio, brioches, broas, sonhos, sonhos, sonhos...
Naquele instante que antecede ao adormecer, sentiu transformar-se num pão com sentidos consentidos mas que seu homem não sabia saborear.

* * * * *

Olhou disfarçadamente para os dois homens que haviam pedido um cafezinho. Lembrou-se que no dia anterior eles também estavam na padaria e, ainda que parecesse estranho, um deles pediu que pusesse um pouco de pinga no café. “Isso é coisa de marginal”, pensou ela enquanto aguardava para ser atendida. Mas não conseguia desprender a atenção daqueles dois sujeitos taciturnos, um indagando com monossílabos e o outro apenas balançando a cabeça, sim ou não. Um deles olhou em sua direção fazendo um arrepio percorrer-lhe a espinha. Depois, comentou qualquer coisa com o outro que balançou a cabeça afirmativamente sem mesmo tirar os olhos da xícara. Quando se dirigiram ao caixa, o que havia feito o comentário enfiou a mão no bolso. A mulher viu os pãesinhos voando ao redor de sua cabeça, soltou o saquinho de leite enquanto as pernas lhe faltavam e caía estatelada naquela poça branca, com os olhos arregalados. Nenhum dos presentes suspeitou que era um olhar de pavor.

* * * * *

A fila deu mais alguns passos. Naquela hora da manhã era sempre assim; todos pareciam querer comprar pão no mesmo momento e o balconista não era exatamente um modelo de eficiência. Uma bengalinha e um saquinho de leite. Três pãezinhos e um saquinho de leite. Tudo mecanicamente. Chegada a vez, ela pediu o de sempre e ao toque nas mãos do pão quentinho, sentiu reviver. Ela, que tanto precisava de um pouco de calor.

* * * * *

— Esse não. Está meio queimado.
— Não é queimado, freguesa. É assim mesmo. Ficou um pouquinho a mais no forno.
— É que eu não gosto. Prefiro o pãozinho bem clarinho.
— A senhora é quem manda, freguesa.
— Tem leite?
— B ou C?
— B. O outro é muito aguado.
— Se engana, freguesa. Leite C só tem menos gordura.
— Mas prefiro o B. Enxuga o saquinho por favor. Senão vai molhar minha roupa.
— Pode deixar. Em ponho numa sacolinha.
— Quanto é?
— Dois e quarenta.
— Tem troco pra cinquenta?
— Não tenho, não. Amanhã a senhora paga.
— Obrigada. Até amanhã, seu Manoel.
Que merda, pensou o comerciante. E lá isto é vida?

* * * * *

Direitos? Que direitos? A mãe insistia na idéia que recebera da mãe e esta, por sua vez, da mãe. Por toda a árvore genealógica vingava o princípio de que mulher era pra cama e mesa.
Quem ficava na cama e quem cuidava da mesa? O marido ainda roncava livre de culpas enquanto ela calçava as botinhas de plástico, pegava o guarda-chuva e ia comprar o pão feito pelos homens.

* * * * *

Quando o jovem sobrinho do padeiro a atendeu, ela sentiu arrepiar-se. Robusto, bonito, trazia nas maçãs do rosto o rubor de um camponês de Trás-os-Montes. Ao receber das mãos dele o pão ainda quente, suspirou fundo segurando delicadamente aquele símbolo fálico e perguntando-se se aquela vermelhidão era de uma vitalidade pronta para explodir ou de acanhamento genuíno.
* * * * *

4 Comentários:

  • Às 9:29 AM , Anonymous Mônica Montone disse...

    Carlos, querido, estive com minha família em Campinas e fiquei reparando como fazemos o que a mãe, da mãe, da mãe da nossa mãe nos ensinou....

    Beijos e boa semana,

    MM

     
  • Às 6:36 PM , Anonymous Sarah disse...

    Adorei o texto!
    Gosto do seu estilo!
    Parabéns!

     
  • Às 8:10 PM , Anonymous Sonia disse...

    Interessantes essas variações sobre um mesmo tema.

     
  • Às 11:42 AM , Anonymous inquieta disse...

    Que interessante , Carlos a ideia de variações sobre o tema. Ficou muito bom.Vc podia desenvolver isso, gostei mesmo.Valeria a pena discutir isso no Balaio.
    beijão
    vera

     

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