CAMINHOS DE PAPEL

segunda-feira, julho 03, 2006

ENTREVISTA COM O MORTO


­- Como é seu nome?
- Luiz Carlos Cordeiro, seu criado.
- Quando foi que você morreu?
- Ah, foi em 91, não lembro direito o dia, não, senhor.
- E que idade você tinha nessa época?
- Trinta anos, doutor.
- E como aconteceu?
- Foi num assalto, moço. Eu trabalhava de cobrador de ônibus, aconteceu o assalto. Eram três elementos; entraram no ônibus, pegaram o dinheiro da gaveta e me deram um tiro no peito.
- Pegaram os assassinos?
- Que eu saiba, pegaram não, doutor. Aliás, quando isso acontecia, e acontece ainda hoje, o caso logo caia no esquecimento.
- Você parece um tanto revoltado com isso. Estou certo?
- Está sim, doutor. Muito certo.
- Por quê?
- Não sei se o senhor se lembra, nesse ano, mais ou menos na época em que eu morri, aconteceu aquele negócio que chamaram de “massacre do Carandiru”.
- E o que tinha a ver com seu caso?
- Com meu caso, nada, seu doutor, mas com o que aconteceu em volta daquele bafafá todo, sim.
- Me explique.
- Quando eu morri, meus colegas fizeram uma paralisação de protesto, seguraram os ônibus na garagem, veio a imprensa, mas não deu em nada, não.
- Continuo não entendendo.
- Quando aqueles cento e onze infelizes foram mortos na penitenciária, pareceu que o mundo ia cair. A jornais deram manchete por vários dias. O pessoal desse tal de Direitos Humanos botou a boca no mundo; veio até uma dona, gringa, de um tal de Humans Rights Watch, de narizinho empinado, que queria porque queria, saber do que tinha acontecido. Teve até um padreco importante, acho que um tal de dom Evaristo Arns, que correu pra rezar uma missa para os mortos, acompanhado de outros doze padres, na Catedral da Sé.
- E isso te deixa revoltado?
- E não é pra deixar, seu doutor? Eu tive uma missazinha, sim, que meus colegas se cotizaram e mandaram rezar lá em São Mateus, mas não teve jornalista, político, nem filho da puta nenhum pra prestar solidariedade.
- E das comissões de Direitos Humanos? Apareceu alguém?
- Nem aquela hora, nem em qualquer outra.
- Você tinha família?
- Sim, eu era casado e tinha dois filhos pequenos.
- E que acontece com eles?
- Até onde eu sei, não foram procurados por ninguém pra receber qualquer ajuda que fosse.
- Por que você resolveu desabafar agora?
- Veja bem, doutor. Aqui no limbo onde me encontro, a gente tem notícia do que acontece por aí. E a gente fica puto da vida com o que acontece?
- O quê, por exemplo?
- Esse tal de Direitos humanos.... serve pra quê?
- Bem, para defender o cidadão contra as injustiças, proteger aqueles ameaçados pelos bandidos... coisas assim.
- E também pra proteger alguns desses bandidos, né, doutor?
- Acho que não é bem assim.
- Não é assim, porra nenhuma. Pensa que nós, os mortos, na sabemos das coisas? Acha que nós não vemos que estão fazendo dessa Suzanne Ritch... Ritchte.. sei lá que nome de merda, uma coitadinha? E esse tal de Pimenta das Neves? Dá um tiro na cabeça da namorada caída no chão e fica solto por aí como se tivesse matado um cão. Ora, doutor...
- Bem, devo admitir que certos casos também me deixam meio cabreiro.
- Pois o senhor deveria ficar cabreiro por inteiro. O senhor acha justo que um bandidão daqueles da pesada sejam tratados a pão-de-ló? Que um promotor possa matar um cidadão com dez tiros e continuar solto? E trabalhando? Que o mandante dos assassinos daquela freira do Pará saiam da cadeia?
- Bem, a Justiça é um pouco lerda e muito burocrática.
- Justiça? Não me faça rir. Quando uma quadrilha de bandidos, daqueles bem fodidos, é aniquilada pela polícia, a primeira coisa que fazem é investigar se houve excessos nessa ação. Isso, mesmo se comprovando que os bandidos estavam armados até os dentes e passeavam pela cidade como se fosse um filme de faroeste. Lembra daquele caso da Castelinho? Um ônibus lotado de bandidos armados até os dentes, rumando para Sorocaba – não era pra fazer compras, não – foi interceptado pela polícia e no frege, todos foram mortos. Quem apareceu pra criticiar? Os mesmos demagogos de sempre, exigindo investigação, justiça, os escambau. Ninguém se importou em procurar saber o que eles, os meliantes, iam fazer, onde e com quem.
- Nesse ponto você...
- Peraí, doutor, eu ainda não acabei. Quando a polícia reagiu, depois daqueles atentados em São Paulo, esses defensores dos tais de Direitos Humanos, ficaram pissudos querendo saber se houve excesso. Bom, tenho de admitir que pode ter havido, sim, só que eu não vi nenhum membro dessas comissões ir visitar as famílias dos policiais mortos. Direitos Humanos só de um lado? Ora, pode parar...
- A violência gera violência. Você acha certo?
- O que eu acho, doutor, é que ela nem deveria começar. Mas, pelo andar da carruagem acho que ainda vamos ver muito sangue correr. Quem viver verá. Quem viveu, também. Não tá vendo os quatro agentes penitenciários assassinados nos últimos dias? Com Copa do Mundo e tudo.
- Pelo seu tom, parece achar que vem mais coisa por aí.
- Ah, ah, ah, ah… o senhor disse “parece”? O senhor ainda não viu nada.
- Uma palavrinha final.
- Um alô pra minha mulher e meus dois filhotes. Não sei o que aconteceu com eles, ninguém sabe. Ninguém se importou. Ninguém mesmo.


3 Comentários:

  • Às 12:32 PM , Anonymous lucia disse...

    Carlos, parabéns.... Mais uma vez vôcê foi brilhante. Crônica atual, verdadeira, e que me emocionou muito. Quisera ter o dom da palavra P/a tecer todos os elogios que você merece. Continue assim...

    bjo

    Lucia

     
  • Às 3:32 PM , Anonymous Mônica Montone disse...

    Carlos, querido, estou passando para dizer que o Fina Flor está em novo espaço!!!! Depois volto para ler você com calma, tá?! É que o texto tá grandinho e agora não dá para eu ler....

    Seguinte, meu rei: estive com problemas no Fina Flor. A uol bloqueou minha conta!!!

    Fiquei tentando resolver, pensando nas melhores soluções e acabei mudando de provedor!!

    Portanto, anote aí e mude o endereço do carinhoso link que você fez para www.finaflormonicamontone.blogspot.com [e obrigada por me colocar junto aos seus]....... Ah, e claro, apareça para conhecer a nova casa [em construção, rs*]

    Beijos e até,

    MM

    Ps: não sei como colocar, ainda, os links dos amigos no novo blog, buáááááá´´aáá

     
  • Às 3:29 PM , Anonymous vera do val disse...

    O moço tá coberto de razão. A coisa é paradoxal . bj

     

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